Poema: Paisagens de Inverno



Ó meu coração, torna para trás. 
Onde vais a correr, desatinado? 
Meus olhos incendidos que o pecado 
Queimou! o sol! Volvei, noites de paz. 
Vergam da neve os olmos dos caminhos. 
A cinza arrefeceu sobre o brasido. 
Noites da serra, o casebre transido... 
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos. 
Extintas primaveras evocai-as: 
_ Já vai florir o pomar das maceiras. 
Hemos de enfeitar os chapéus de maias._ 
Sossegai, esfriai, olhos febris. 
_ E hemos de ir cantar nas derradeiras 
Ladainhas...Doces vozes senis..._ 

II 



Passou o outono já, já torna o frio... 
_ Outono de seu riso magoado. 
llgido inverno! Oblíquo o sol, gelado... 
_ O sol, e as águas límpidas do rio. 
Águas claras do rio! Águas do rio, 
Fugindo sob o meu olhar cansado, 
Para onde me levais meu vão cuidado? 
Aonde vais, meu coração vazio? 
Ficai, cabelos dela, flutuando, 
E, debaixo das águas fugidias, 
Os seus olhos abertos e cismando... 
Onde ides a correr, melancolias? 
_ E, refratadas, longamente ondeando, 
As suas mãos translúcidas e frias... 

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra' 

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